quarta-feira, 16 de junho de 2004

MEDO E DELÍRIO


Nas margens do deserto, um conversível vermelho a toda velocidade. Na direção do carro, o jornalista Hunter Thompson (Johnny Depp) fala: “De repente ouvimos um rugido terrível e o céu se encheu de morcegos enormes, guinchando e mergulhando em direção ao carro”. É assim que começa "Medo e Delírio" e é assim que vai ser nas próximas horas. Muitas alucinações vão rondar a viagem de Thompson e o seu advogado, Dr. Gonzo (Benicio Del Toro). Mas essa não é uma viagem qualquer. Ela, segundo o próprio jornalista, será uma afirmação do verdadeiro caráter nacional, uma forma de reverenciar as “fantásticas” possibilidades de viver nos Estados Unidos.

O ano é 1971, auge da Guerra do Vietnã. Na estrada, a caminho de Las Vegas, os dois combatentes vão para uma guerra particular em busca do sonho americano. A missão é fazer uma cobertura para a revista "Rolling Stone" do Mint 400, uma competição de motocicletas “off-road”. No porta-malas do conversível, munição de sobra para uma viagem explosiva e psicodélica: 2 sacos de maconha, 75 pílulas de mescalina, 5 envelopes de ácido, 1 saleiro com cocaína, 500 ml de éter, 24 estimulantes sexuais, tequila, rum, cerveja e uma galáxia de excitantes antidepressivos e estimulantes, em que a tendência é ir até o limite.

"Medo e Delírio" trata de um capítulo da vida do célebre jornalista Hunter Thompson, vivido com maestria pelo metamórfico Johnny Depp. Para Thompson, a idéia de cobrir a corrida de forma tradicional era ridícula. Era preciso inventar, como ele mesmo diz, “puro jornalismo gonzo”. É esse estilo de jornalismo que Thompson acaba criando. Um jornalismo de atitude, no qual o repórter se torna personagem da ação e com histórias recheadas de humor, ironia e sarcasmo para criticar os acontecimentos.

Num misto de road movie e impressionismo, o diretor Terry Gilliam, de filmes como o hilário "Monty Python em Busca do Cálice Sagrado" e "Os Doze Macacos", tece aqui, uma parábola entre a “viagem” das drogas e a Guerra do Vietnã. A todo momento se faz alusão a guerra. Os personagens principais consideram a cobertura para a revista, uma missão de guerra. Eles precisam se munir até os dentes para enfrentar os “inimigos”. A bandeira americana sempre aparece. O jornalista tem alucinações com um avião jogando mísseis. No meio da poeira, ao som de " The Ride of the Valkyries", música tema de "Apocalypse Now", o campo de batalha é o local da corrida. Thompson em cima de um jipe pensa ouvir barulho de metralhadora.

Apesar da premissa do filme ser interessante, "Medo e Delírio" acaba sendo um longa arrastado e monótono. Numa trama desconstruída, o que é apresentado na produção são apenas paranoias, loucuras e alucinações de Thompson e Gonzo. Em meio a rostos que se distorcem e répteis gigantes, a conclusão a que se chega sobre o filme é a mesma de Thompson sobre o efeito da mescalina: “Na primeira hora nada acontece. Na segunda hora você começa a xingar quem lhe vendeu, porque nada acontece”.

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