terça-feira, 20 de novembro de 2007

RESGATE DO NOIR


“O Segredo de Berlim” tem como pano de fundo uma Berlim devastada pela guerra no qual traz George Clooney como o jornalista de guerra Jake Geismar que reencontra a ex-amante Lena Brandt (Cate Blanchett) e acaba se envolvendo em uma misteriosa trama de assassinato.

O filme faz uma grande homenagem ao gênero noir. O noir surgiu na década de 1940, após a 2° Guerra Mundial. As produções desse gênero despertaram o interesse geral em função das suas características visuais e temáticas diferentes de outros filmes realizados antes da guerra.

Os filmes tinham como particularidades, histórias cheias de niilismo, paranoia e cinismo; a existência de personagens ambíguos, crimes e uma ambientação urbana. Eles eram estruturados em uma narrativa sinuosa e pessimista em voz over e utilizavam a fotografia em preto-e-branco.

O diretor Steven Soderbergh recria toda a ambientação e clima do noir em “O Segredo de Berlim”. A história tem um casal que vive um amor proibido, os personagens são pessoas em quem não se pode confiar. A interpretação dos atores é bem teatralizada, com um tom de voz rebuscado. Cate Blanchett faz uma clássica femme fatale, misteriosa cheia de segredos, que lembra Ava Gardner.

A fotografia em preto-e-branco é impecável, com a trama ambientada em locais escuros, noites esfumaçadas e com uma trilha sonora cheia de nuances. Outras características marcantes são os planos com grande profundidade de campo e enquadramentos de baixo para cima (contra-plongée) em que se mostra o teto dos cenários. Para colocar o teto como parte integrante do enquadramento, deve se contar com um bom trabalho de fotografia. Como o teto é mostrado, dificulta-se o trabalho de iluminação do local. Esse recurso era muito utilizado pelo cineasta Orson Welles, como no filme “Cidadão Kane”. “O Segredo de Berlim” é um ótimo convite à aqueles que querem conhecer melhor esse gênero fascinante que é o noir.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

MANDANDO BALA


“Mandando Bala” é um ótimo filme de ação. “Mandando Bala” é um péssimo filme de ação. Bem, isso vai depender de quem assiste ao filme. E isso levanta uma questão interessante a respeito do cinema de ação. Esse gênero é o que mais atrai público aos cinemas e para gostar dele é preciso embarcar na aventura.

Quantas vezes você já ouviu alguém na sala de cinema reclamando de alguma cena de um filme de ação? Coisas do tipo: “Até parece”, “Ah, ele não vai fazer isso” ou então “Ai que mentira!”, são comuns de se ouvir.

O cinema surgiu há mais de 110 anos e ele possui diversas funções e a principal delas é a de entretenimento. A ideia de entrar numa sala escura, se refugiar lá por duas horas e viver uma grande história pela tela empolga muita gente. Segundo o autor Christian Metz o conteúdo de um filme é classificado de várias formas.

O tipo heroico satisfaz no espectador uma generosidade sem uso na vida cotidiana. E o filme de ação é um gênero que permite isso. Com ele, o espectador vive histórias incríveis, inimagináveis que só podem ser vividas no cinema. Cada gênero cinematográfico tem o seu dizer próprio, um conteúdo específico no qual o impossível é possível. Por isso, ao assistir a um filme de ação é preciso conhecer as regras do jogo para vivenciar e apreciar todas as peripécias na tela de forma intensa e íntima.

O filme de ação funciona com o modelo comum no qual o herói deve capturar um outro personagem do domínio hostil. A partir desse modelo há variações. O “erro” que seria um assassinato, roubo ou separação implica no ponto de partida da história. O herói leva a cabo uma briga com o oponente de forma que seu objetivo seja realizado e no final conseguir reparar o “erro”.

No filme “Mandando Bala” o herói tenta salvar uma mulher que acaba de dar à luz, só que ela acaba morrendo em um tiroteio. Resta a ele livrar o bebê da morte, quando descobre que a criança é alvo de um esquema de transplante de medula óssea. Confuso? Pois a trama um tanto quanto complicada deve ser deixada de lado. O bom mesmo é se deixar levar pela aventura, no qual a improbabilidade é a ferramenta para o diretor Michael Davis criar cenas absurdamente criativas.

O herói se chama Smith (Clive Owen) e é um homem mal-humorado que se designa como um babá britânico e perigoso. Ele é jeitoso com as palavras e é bem esperto. O tempo todo ele come cenoura, já que faz bem para os olhos e consequentemente ajuda na mira quando vai atirar. E para comprar munição ele não faz cerimônia e usa ticket de alimentação, já que serve como dinheiro.

Para ajudar Smith ele vai atrás da bela prostituta ama-de-leite interpretada pela generosa (Monica Bellucci), já que o bebê está faminto e também precisa de um carinho materno. O vilão, vivido pelo sempre ótimo Paul Giamatti é um capítulo à parte e fica pra ele a tarefa de dizer os diálogos mais divertidos do filme, como: “Sabe qual a diferença entre a esposa e a arma? É que na arma dá pra por um silenciador!”.

Outra pérola dele é a seguinte: “Violência é uma das coisas mais divertidas de se ver”. E não é verdade? Em qual outro gênero cinematográfico se pode ver loucuras fisicamente impossíveis de acontecer? Em "Mandando Bala", o herói enfrenta um batalhão, sem se machucar e ainda por cima com um bebê nos braços. E a forma então como o vilão é morto é engraçadíssima de tão absurda que é.

O filme é ágil, não perde tempo com cenas piegas e blá blá blá. Tudo é bem exagerado, com um humor cínico. Ele é absurdo sim, é insano sim e esses ingredientes nunca foram tão bem usados numa produção de ação como nessa. Então quem for assistir a “Mandando Bala”, prepare-se para as regras do jogo. Perderá aquele que não souber se divertir com um filme de ação.