terça-feira, 2 de maio de 2006

MICHAEL MOORE E COMPANHIA: DOCUMENTÁRIO COMO INSTRUMENTO DE DENÚNCIA


O documentário é um gênero em que se narra algo por meio do som, no qual se estabelecem afirmações sobre o eu e/ou o mundo pelas imagens, por intermédio da câmera. Ao assistir a um determinado filme, o espectador consegue distinguir o que é ficção e o que é documentário. A ficção é uma trama com personagens que entretém o público. O documentário é uma forma de representação feita por asserções.

Dentro do documentário existem quatro quadros estilísticos e modos de representação:
Estilo:
1.Poético: representação do mundo urbano ou voltado para as asserções sobre o eu.
2.Clássico: uso da voz over, imagens de arquivo, música e encenação.
3.Moderno: dividido em direto (imparcialidade, ideologia, voltado para o acaso) e verdade (interatividade por meio de entrevista. Reflexão).
4.Contemporâneo: dividido em cabo (asserções temáticas. Mostra o que aconteceu) e autoral (em função do diretor. Voz na 1° pessoa).

Representação:
1.Expositivo: narração e comentários em voz over.
2.Observacional: não intervenção da equipe técnica. Evita entrevistas, comentários, letreiros, etc.
3.Interativo: intervenção do cineasta.
4.Reflexivo: uso de ironia, sátira e intervenção ativa do cineasta.

Hoje, os documentários se tornaram uma coqueluche. Não é preciso muitos recursos para se fazer um e com isso, muitas vezes, os cineastas acabam realizando produções com temas banais. Mas outros tiram proveito dessa facilidade para discutir temas palpitantes. Aí está uma forma inteligente de usar a linguagem do documentário para denunciar.

Os documentaristas fazem asserções sobre questões problemáticas do mundo. Esses problemas são contados aos espectadores para mostrar fatos que aconteceram ou acontecem e levá-los a uma reflexão a respeito. Nesses documentários, o estilo mais utilizado é o cinema-verdade, no qual há interatividade por meio de entrevistas sobre um determinado tema, gerando assim, a reflexão por parte do espectador.

Nos últimos anos têm sido lançados ótimos exemplares desse estilo de documentário. O nacional “Ônibus 174”, de José Padilha mostra o desenrolar trágico do sequestro de um ônibus no Rio de Janeiro em 2000. O diretor se aproveita deste caso para analisar a violência nas grandes cidades.

“The Corporation” examina o conceito, evolução e impacto das grandes corporações nos Estados Unidos, além do poder delas na vida da população. Em “Super Size Me – A Dieta do Palhaço”, o diretor Morgan Spurlock faz uma análise dos hábitos alimentares dos americanos. Ele se submete a passar um mês comendo somente fast food da rede de lanchonetes McDonald’s mostrando as consequências desse hábito.

O australiano “Kidnapped” tenta desvendar o motivo do desaparecimento de 13 japoneses entre os anos 70 e 80. Uma das suposições a que se chega é de que eles foram sequestrados por espiões da Coreia do Norte, como parte de um complô do líder Kim Jong II. Este ano foi lançado nos Estados Unidos, “Uma Verdade Inconveniente”. Durante a campanha presidencial de Al Gore, são questionados problemas ambientais como o aquecimento global.

Esses são apenas alguns exemplos, mas no meio de muitos, com certeza, um grande representante desse modelo de documentário é o diretor Michael Moore. Nascido em Flint, Michigan, nos EUA, ele estudou Jornalismo e depois passou a se dedicar à carreira de cineasta. Seu primeiro documentário foi “Roger e Eu” (1989), no qual investiga o fechamento da General Motors em sua cidade natal e o que isso acarretou ao município. A produção mostra as diversas tentativas de Moore em falar com o presidente da companhia.

No seu primeiro filme, o cineasta mostra uma característica que seria sua marca registrada em seus próximos trabalhos: ser a “pedra no sapato” de políticos, instituições e grandes corporações, expondo sua opinião com uma boa dose de ironia e sarcasmo. Depois ele alternou produções para o cinema, vídeo e televisão, como “The Big One”, “TV Nation” e “The Awful Truth”. Em 2002, o diretor ganhou o Oscar de melhor documentário de longa-metragem por “Tiros em Columbine”.

Os filmes de Moore seriam uma mescla dos estilos clássico, moderno e contemporâneo. Dentre os modos de representação as produções se encaixam nos modelos expositivo, interativo e reflexivo. O último e mais badalado trabalho do diretor, “Fahrenheit 11 de Setembro” (2004), serve bem para exemplificar o trabalho de junção de estilos e modos de representação citados anteriormente.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO


Em “Fahrenheit 11 de Setembro”, o diretor Michael Moore decide bater de frente com ninguém menos que George W. Bush, presidente dos Estados Unidos. O cineasta expõe sua visão sobre a situação atual do país. A produção começa alegando que Bush teria roubado na eleição de 2000. O filme mostra o presidente saindo de férias em meio às dificuldades do seu governo.

Em dez minutos de projeção, o longa muda de tom com os créditos de abertura com cenas de políticos se preparando para falar do início da guerra do Iraque. Em seguida a tela fica escura e ao fundo, ruídos de pessoas em pânico nas proximidades do World Trade Center. Um momento assustador, mas poderoso ao mesmo tempo, que prepara o público para as asserções importantes que Moore vai fazer a seguir.

O cineasta faz indagações em relação as declarações de Bush com voz over em tom irônico, como na pergunta: “Dois meses? Deram a um assassino em massa que atacou os EUA, dois meses de vantagem? Quem em seu juízo perfeito faria isso?” Ou então: “Deixe-me ver se entendi. Idosos na academia: ruim. Grupos pela paz em Fresno: ruim. Leite materno: ruim. Mas fósforo e isqueiro no avião não tem problema”.

Moore trabalha com muita imagem de arquivo, explorando o lado mais desfavorável do presidente americano, o que resulta em cenas cômicas, em especial àquelas que mostram seus momentos caseiros. A música também é um fator importante, com o uso de alguns temas famosos para ilustrar as imagens e asserções, como os temas do filme “Sete Homens e um Destino” e do seriado “Dragnet”.

Com o artifício do cinema-verdade, o diretor utiliza a entrevista como forma de interagir com os entrevistados. Ele conversa com a mãe de um soldado que perde o patriotismo quando recebe a notícia de que seu filho morreu no Iraque. Nessa interação, Moore acaba sendo também um “personagem” do documentário. Isso se percebe na cena em que ele sai pelas ruas de Washington anunciando o Ato Patriótico. E também quando ele e um combatente da Marinha vão ao Capitólio para convencerem congressistas a mandarem seus filhos servirem no Iraque. O diretor até se dirige ao espectador com a pergunta: “Eu não sei quanto a vocês, mas quando os policiais não encontram um assassino, eles não falam com os familiares para descobrirem onde ele possa estar?”.

Outras asserções feitas ao longo do filme são sobre a relação entre as famílias Bush e Bin Laden. O poder da mídia em amedrontar o povo americano, como o canal Fox News, que quebrou a ideia de imprensa independente no país. A paranoia com a questão da segurança, culminando com os motivos infundados da guerra do Iraque e os interesses por trás disso, em defesa dos cartéis de petróleo.

Como se tratam de temas de denúncia é possível ao espectador refletir sobre eles. No filme são discutidas questões que o público às vezes não tem muito conhecimento. A sátira também é um recurso utilizado por Moore. Para ilustrar algumas afirmações, ele usa cenas de filmes e seriados. Faz até uma montagem com temática de faroeste chamada “Afeganistão”, estrelando os “cowboys” George W. Bush, Donald Rumsfeld, Dick Cheney e Tony Blair. Outra sátira é sobre a “Coalização dos que Concordam”. Uma voz tenebrosa cita alguns países como República da Costa Rica, Islândia e Romênia, como “grandes” aliados dos Estados Unidos na guerra do Iraque.

Com tantas informações reunidas no documentário, o filme conta com uma montagem precisa. É interessante notar que com o uso da edição, faz ficarem evidentes fatos contraditórios do governo. O documentário mostra Bush falando que tem justificativas para invadir o Iraque. Em seguida, membros de sua equipe, dizem o contrário. Num outro momento, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld fala do cuidado na escolha dos alvos em Bagdá, intercalado com tomadas de civis sendo mortos.

Em seus filmes, Michael Moore defende o seu ponto de vista e por isso, ele é tão controverso. Uns amam, outros odeiam. É importante ressaltar que quando se assiste a um documentário, o espectador não pode questionar a ética, a posição e os motivos do diretor ao fazer determinado documentário. Deve-se assistir ao filme, analisando e absorvendo as asserções feitas, para refletir e formar uma opinião própria a respeito dos assuntos tratados no filme. Moore utiliza de forma inteligente, os quadros estilísticos e modos de representação de documentários, para fazer afirmações sobre questões pujantes. Isto resulta num documentário de denúncia envolvente e contundente.